O sentido da paternidade

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Meu pai sempre foi uma espécie de super-herói pra mim. A figura paterna referenciada como socorro na angústia e resgate na aflição compuseram o arcabouço de minha personalidade enquanto indivíduo com razão e emoção.

Hoje,tornei-me pai também. Busco aplicar na relação com meu primogênito tudo aquilo que sempre sonhei na relação com meu progenitor. Nem sempre consigo. É daí que faz sentido o brocardo “que só se aprende a ser filho quando nos tornamos país”.

Concordo em partes com Mia Couto, quando o moçambicano diz que é preciso acreditar no sangue. Na força do sangue. No entanto penso que existem, como em quase tudo nesta vida, exceções e suplementações.

Nem toda paternidade é sanguínea, genética. Há aqueles que possuem está dádiva, até que a mulher dona da foice visite a família. Outras vezes quem traz o fim à relação é uma outra mulher, dona de olhares e carinhos traiçoeiros. De toda forma, é natural e certeiro que chega um dia,um momento, em que nos deparamos com a paternidade e seu fim.

Há também aqueles que sequer gozaram e conheceram este prestígio, por razões alheias ao próprio conhecimento e noção de existência.

E então? O que fazer?

O ser humano, por mais racional que seja, é dotado também de emoções que o impedem de suprimir uma necessidade intrínseca de relação paternal.

Existem novas relações ao longo da vida que estabelecem uma suplementação a paternidade natural do indivíduo. Nunca substitui,nem substituirá. Todavia não se trata de matemática ou justiça, trata-se de realidade, e está, nem sempre é como gostaríamos que fosse.

Estabelecemos então,ainda que inconscientemente, relações distintas com outras pessoas que passam a ser um referencial de autoridade e segurança, um aporte de conhecimento e carinho. Nos tornamos então vulneráveis até,ora, nós desarmamos e passamos ao estado natural do ser humano, com estas.

Percebem o sentido da paternidade? Não se trata de uma posição cardinal, finita e exata. Outrossim, de uma relação estabelecida como referencial e alento.

Meu desejo, neste dia dos pais, meus amigos, é que encontremos e sejamos pais cujos filhos prefiram nossa existência à nossa herança. Que a escolha seja pela felicidade, não pelas oportunidades.

”meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.” Vinícius de Morais

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